sexta-feira, 31 de julho de 2009
Ausência
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
Carlos Drummond de Andrade
quinta-feira, 30 de julho de 2009
Para o Meu Coração...
Para o meu coração basta o teu peito,
para a tua liberdade as minhas asas.
Da minha boca chegará até ao céu
o que dormia sobre a tua alma.
És em ti a ilusão de cada dia.
Como o orvalho tu chegas às corolas.
Minas o horizonte com a tua ausência.
Eternamente em fuga como a onda.
Eu disse que no vento ias cantando
como os pinheiros e como os mastros.
Como eles tu és alta e taciturna.
E ficas logo triste, como uma viagem.
Acolhedora como um velho caminho.
Povoam-te ecos e vozes nostálgicas.
Eu acordei e às vezes emigram e fogem
pássaros que dormiam na tua alma.
Pablo Neruda
quarta-feira, 29 de julho de 2009
Whale Song
"Estou farta da democracia"
Guida Maria é uma montanha russa de emoções: apaixonada, frontal, destemida, viciante. Uma lição de vida, da vida que acaba de contar em livro. Sem pudor. Pisou o palco pela primeira vez aos sete anos. Aos 59, continua a ser das melhores actrizes do país.
Há quantos anos não vê um um político na plateia de teatro? Nos meus espectáculos, com excepção do dr. Amaral Paes, nunca vi nenhum. Eles têm que ir ao futebol, não podem ir a todas, não é?
Num ano particular, com duas eleições, as suas expectativas centram-se nas legislativas ou nas autárquicas? [Risos] Não me faça rir! Expectativas?! Mas os políticos são sempre os mesmos! Só as moscas é que mudam – mas só mudam de uns para os outros!
Não vai votar? Eu?! Nem sei há quantos anos já deixei de votar! Sou uma mulher empreendedora, que se entusiasma com as coisas, mas não é possível entusiasmar-me durante 30 anos seguidos e não ver nada! Não acredito em nenhum político! Já nem os ouço e quando ouço começo a rir. É tudo uma vigarice!
A cultura não dá votos? Não dá é dinheiro! E dá muitas chatices, muita dores de cabeça. E, claro, também não dá votos. Porque não se pode roubar muito na cultura. Roubar o quê?
Atingiu a maioridade em plena ditadura. A democracia com que terá sonhado é aquela que tem hoje? Para ser totalmente honesta, estou farta da democracia! Farta que comandem a minha vida! Pensava que íamos ser todos mais felizes, viver melhor. A verdade é que vivia melhor na altura do outro senhor, esse chamado Salazar. Chamem-me lá o que quiserem, não me importo. Ganhava rios de dinheiro, com 18 anos ganhava 14 contos – em 1968 era uma fortuna.Tinha mais trabalho, os meus filhos levavam açoites quando precisavam e não ficavam traumatizados, fumava em todo o lado...
A liberdade que Portugal ganhou em Abril de 1974 sufoca-a? Mas qual liberdade?! Só sou livre dentro de minha casa, e só se não estiver a incomodar os vizinhos.
Na biografia que lançou recentemente – “Guida Maria: Uma vida” – diz que é do tempo do beija-mão. “Com tanta benção, sempre achei que a minha vida seria um mar de rosas”. O país também mudou por aí? Sim, sim, completamente! Portugal está um país de gente mal educada, sem berço, selvagem. As pessoas hoje não dizem bom dia, quanto mais ir ao beija-mão. Talvez seja isto progresso, não sei.
Nesse livro, fala sem pudor das suas quedas amorosas: “eram casados ou bichas e ou andavam na droga.” Depois da experiência de Maria Filomena Mónica, criticada pelas revelações do foro íntimo, não pensou duas vezes antes de fazer as suas? Então, se comecei a ser criticada aos 15 anos e não me importei, acha que é agora, aos 59, que me vou preocupar? Que falem, é sinal de que estou viva. Só disse o que queria dizer.
Quando descobriu que essa frontalidade lhe dava genuíno prazer? Ah, sempre fui assim. Quando não devemos nada a ninguém nem temos telhados de vidro, somos assim. Estou tesa que nem um barrote, mas sou respeitada. Vou ao banco e tenho crédito, também pessoal. Quem trabalha comigo recebe sempre, nem que tenha que vender o carro. Se eu fosse de outra maneira talvez tivesse mais dinheiro, mas não seria tão feliz.
Termina hoje a temporada de “Monólogos da vagina”. Há nove anos, quando disse o texto pela primeira vez, pareceu-lhe excessivo para Portugal? Nunca achei que estava a dar pérolas a porcos. Diziam-me que era maluca e que acabaria insultada. Não aconteceu nada disso. As pessoas não são todas burras nem todas idiotas. Ganhei essa batalha.
Se amanhã fosse o seu último dia, o que gostava de não deixar por dizer? [Silêncio] Imensas coisas, e outras tantas que gostaria de não ter dito: não resolveram nada e só me cheteei. Mas para dizer era preciso que ouvissem e já ninguém ouve ninguém. As pessoas estão no teatro de telemóvel aberto no colo. Não estão interessadas em ouvir porra nenhuma, nem sequer quando pagam!
Entrevista conduzida por Helena Teixeira da Silva in Jornal de Noticias
terça-feira, 28 de julho de 2009
Quinn Sullivan
segunda-feira, 27 de julho de 2009
Citações
( Albert Einstein )
"Nunca perca a fé na humanidade, pois ela é como um oceano. Só porque existem algumas gotas de água suja nele, não quer dizer que ele esteja sujo por completo."
( Mahatma Gandhi )
Novas Oportunidades - A ignorância certificada
Perante a publicidade aos referidos cursos, aqueles que abandonaram a escola ou, por qualquer razão não concluiram um dos ciclos de escolaridade, esfregaram as mãos de contentes, uma vez que agora se lhes oferece a oportunidade de obterem um certificado de habilitações que lhes poderá vir a ser útil. E como diz o ditado”mais vale tarde do que nunca”, eles lá se inscreveram. Por outro lado, três meses das 7.00 as 10.00 horas, horário pós‐laboral, uma vez por semana, era coisa fácil de realizar. Coitados daqueles que andam 3 nos (7º, 8º e 9º anos) para concluirem o 3º ciclo!!! Isso e que é difícil!
Na rua, no café, nos locais públicos em geral ouve‐se: “Ah! Agora, ando a estudar! Ando a fazer o 9º ou 12º ano! Aquilo é porreiro, pá!”
Entretanto, há pessoas com quem contactamos no dia‐a‐dia, mais próximos de nós, o cabeleireiro, o sapateiro, a empregada doméstica, etc. que também nos confidenciam com ar feliz: “Agora, com esta idade, ando a estudar! Ando a fazer o 9º!” E ns, simpàticamente, sorrimos, abanamos a cabeça e dizemos que fazem bem, sempre é uma mais valia… contudo, numa dessas conversas, tentei descobrir que disciplinas constavam do curso, ficando a saber que eram Português, Matemática, Informática e Cidadania para o 9º ano; e indaguei ainda como eram as aulas e a avaliação final.
E fiquei atónita. Em Português o formando teria que escrever a história da sua vida e a razão por que se inscreveu no curso, sendo o texto corrigido aula a aula pela respectiva formadora; Matemática consistia em efectuar cálculos básicos e apresentar, por exemplo, a receita de um bolo e duplicá‐la; para Informática apercebi‐me que seria a apresentação do trabalho escrito e, posteriormente, quem quisesse apresentá‐lo‐ia em “powerpoint”; em Cidadania, os formandos apresentavam os diferentes resíduos e diziam em que contentor os deveriam colocar. A nível de Português ainda foi pedida a leitura de um livro e seu comentário, sendo a selecção ao critério do formando o que deu origem a autores “light”, nada de autores portugueses de renome; a acrescer a este comentário teríam também de fazer a apresentação crítica a um filme e a uma reportagem. Todos estes elementos seriam entregues num dossier, cuja capa ficaria ao critério de cada formando.
Três meses passaram num abrir e fechar de olhos, por isso um destes dias, enquanto aguardava a minha vez para ser atendida no consultório médico, fui brindada com o dossier do curso da recepcionista e respectivo certificado de 9º ano. Engoli em seco aquelas páginas recheadas de erros ortográficos e de construção frásica, desencadeamento de idéias e falta de coesão, (…), entremeados por bonitas fotografias; na II parte, umas contitas simples e duas tábuas de multiplicação; e em Cidadania, os contentores do lixo coloridos com a indicação dos resíduos que se põem lá dentro.
Em seguida, com um sorriso muito branco (nem o amarelo consegui!) e, como bem educada que sou, felicitei a dona do dossier cuja capa estava realmente bonita, original, revelando bastante criatividade e ouvi‐a alegre dizer: “A formadora disse‐me que tinha hipóteses de fazer o 12º ano. Logo que possa, vou fazer a minha inscrição!”
Fiquei estarrecida, sem palavras para lhe dizer o que quer que fosse. “As Novas Oportunidades” são isto? Esta a gastar‐se tanto dinheiro para passar certificados de ignorância? Será que todos os formadores serão iguais a estes? E o 9º ano é escrever umas tretas e ler um Nicholas Sparks e um artigo da revista “Simplesmente Maria”? E o 12º ano será a mesma coisa (queria dizer chachada) acrescida de uma língua?
Continuando assim o país a tapar o sol com a peneira, teremos em poucos anos a ignorância certificada!
Marta Oliveira Santos – Licenciatura em Filologia Românica in Correio da Educação
Agora sim, entendi como se datam diplomas de curso a um domingo e se obtém o de inglês técnico por fax. 'Ou há democracia ou comem todos'. Pobres dos alunos - os de verdade - que têm que estudar 7 anos enquanto os que fingem estudar obtêm as mesmas habilitações ao fim de seis meses...
Cabecinhas pensadoras !!!
domingo, 26 de julho de 2009
Traições
Tempos houve em que os intelectuais eram verdadeiros contra-poderes. Hoje, e depois da ‘traição’ de que falava Julien Benda, os intelectuais servem apenas para enfeitar os poderes. Basta olhar para o caso Miguel Vale de Almeida. Nos últimos anos, Vale de Almeida foi um crítico feroz do PS e da mediocridade dos seus deputados.
Agora, Vale de Almeida é candidato a deputado pelo partido que publicamente execrava. Como explicar a metamorfose? Alguns líricos garantem que o PS é tão pluralista que até convida quem violentamente o critica. Outros, mais cínicos, afirmam que é sempre bom ter um conhecido activista gay para contentar a esquerda e as minorias que tradicionalmente votam Bloco. Pessoalmente, é-me indiferente: na sua edificante amnésia, Vale de Almeida é sobretudo o exemplo do intelectual doméstico que o poder usa e abusa como adorno.
João Pereira Coutinho in Correio da Manhã
Comentários para quê? !!! Era só quem faltava para completar o naipe...






